Atualmente o Recife comporta três cursos de cinema de nível superior. Há cinco anos, a Faculdade Maurício de Nassau abriu vagas para o primeiro curso de cinema do estado, o Cinema Digital. Três anos depois, a Universidade Federal de Pernambuco inseriu o curso de Cinema em sua grade de cursos. Em 2010, o grupo Faculdades Integradas Aeso/ Barros Melo inovou, trazendo a Pernambuco o primeiro curso superior de cinema de animação do País. Em cinco anos, serão mais de 400 novos cineastas formados em Recife.
A capital pernambucana, tem tradição na sétima arte, e nomes consagrados do cinema nacional, nasceram aqui. Porém, até então, existe uma prática de migração. Sair do Estado, fazer parte de grupos cinematográficos já constituídos e com a prática definida, esse tem sido o roteiro dos profissionais recifenses. Com a chegada dos novos cursos, há a possibilidade de outras oportunidades. Ressaltando que, para se fazer um cenário cinematográfico, não é preciso apenas diretores e atores . Há o mercado da distribuição, montagem, produção e também a possibilidade de seguir a carreira acadêmica, pois se há crescimento regional das faculdades de cinema, também há necessidade de profissionais especializados e formados.
O cinema vive uma nova transformação. Agora, o mundo digital ajuda a compor um novo universo, onde a interatividade e o acesso aos conteúdos de maneira facilitada, agrega outros valores e também outros cinemas. Recife está formando novos cineastas para um novo olhar sobre um novo cinema.
O professor e coordenador do curso Cinema de Animação das Faculdades Integradas Aeso, Léo Castro, fala sobre a importância de entender o mercado cinematográfico como uma coisa integrada e também sobre a importância dos novos meios tecnológicos no curso. A entrevista é de Maria Eduada Ferraz.
"Essa ideia de poluição é purista e autoritária, pois pressupõe que há uma sensibilidade superior que não deve se contaminar com “esses produtos” de baixa qualidade. Contudo, vivemos um momento que demonstra que o que é considerado “trash” hoje pode se transformar em cult amanhã"
1) Os cursos de cinema em Recife só existiram a partir de poucos anos atrás. O fator tecnológico, a partir da chegada de novos equipamentos e tecnologias, barateou o custo e facilitou a chegada desses equipamentos?
De fato, nos últimos cinco anos foram implantados três cursos superiores de cinema em Pernambuco. Contudo, não atribuo essas iniciativas ao fator tecnológico, apenas. Acredito que esse fator é secundário, frente a uma demanda social que foi percebida e que colocou a necessidade de criação desses cursos para o atendimento dessa demanda. Analisando com cuidado veremos que Pernambuco é um estado em que o cinema parece ter exercido um grande fascínio. Houve o Ciclo do Recife, que ficou marcado pelas realizações de entusiastas do cinema já na década de 20, houve uma cena forte de cinema super-8, o vídeo também foi bastante explorado nos anos 80 e nos anos 90 ocorre um “boom”, que certamente foi favorecido pela revolução tecnológica do vídeo digital, mas foi também no início dos anos 90 que Pernambuco assumiu a posição de um dos protagonistas da retomada do cinema brasileiro. Essa geração de cineastas dos anos 90, que produziu filmes belíssimos e alcançou notoriedade na cena nacional, é também responsável pela articulação política que resultou na criação dos mecanismos locais de fomento à produção, que, independente dos critérios de julgamento, é uma conquista da categoria e oferece condições para o fortalecimento e profissionalização do setor. Com isso podemos dizer que o surgimento dos cursos superiores de cinema responde a uma demanda da sociedade.
2) A grande demanda de cineastas recifenses que estarão formados daqui a cinco anos terá espaço no estado de Pernambuco?
Considerando o audiovisual como um segmento da economia como outro qualquer, devemos pensá-lo como uma cadeia produtiva. O campo do audiovisual é formado só pelos diretores, técnicos e atores? Não, ele articula diversas especialidades, tem a área da distribuição e exibição, tem a critica, existem ações educativas, uma série de setores que compõem o arranjo produtivo do audiovisual. O que as políticas públicas para o setor demonstram é que o audiovisual é percebido como um importante dispositivo de transformação social e não estou me referindo a questões de engajamento político. Quando compreendemos o campo do audiovisual a partir da dimensão do arranjo produtivo que ele articula percebemos que esses, os cursos de cinema, precisarão formar muitas turmas para atender a toda essa cadeia. Não podemos esperar que todo estudante de cinema se torne um novo diretor, às vezes o estudante inicia o curso com essa ambição, mas percebe que prefere atuar em outras funções. Mas mesmo na área da produção cinematográfica o que limita o número de profissionais que a área suporta? Para empregar técnicos é necessário que filmes sejam realizados, para isso são necessários roteiristas, produtores executivos, espectadores (de preferência os dispostos a pagar o bilhete), ou seja, o fundamental é que existam projetos economicamente viáveis e pessoas capazes de executá-los e, ao que me consta, são esses profissionais que os cursos de cinema propõem formar.
3) No caso do cinema de animação, os alunos são formados para fazer cinema para quem?
Para o mercado, certamente. Tavez a pergunta seja: que mercado é esse? O perfil esperado do nosso egresso é que seja um profissional capaz de trabalhar com variadas técnicas de animação. Uma breve análise das produções audiovisuais demonstra que os recursos de animação estão presentes em praticamente todas as produções cinematográficas ou televisivas, seja na publicidade ou nos filmes comerciais. Há ainda o mercado dos games em franca expansão, demandando profissionais com esse tipo de formação. Ampliando essa noção de mercado, não devemos descartar uma atitude empreendedora, pois um profissional capaz de criar um personagem, elaborar um projeto e levantar recursos ele não se colocará como empregado, mas como empregador. Ainda assim ele trabalhará para o mercado, pois mesmo os trabalhos patrocinados com recursos públicos respondem a uma demanda de mercado. Nossa missão é formar profissionais que possam atender às demandas desse mercado, seja um grande estúdio internacional, seja uma pequena produtora local, pois isso depende mais do horizonte de expectativas e do empenho do estudante.
4) A internet ajuda ou polui o aprendizado dos alunos? O chamado ‘cinema de youtube’ é visto de que forma pelos professores?
É evidente que ajuda. Ajuda muito, pois são referências tanto de excelentes como de péssimos trabalhos. Essa ideia de poluição é purista e autoritária, pois pressupõe que há uma sensibilidade superior que não deve se contaminar com “esses produtos” de baixa qualidade. Contudo, vivemos um momento que demonstra que o que é considerado “trash” hoje pode se transformar em cult amanhã. Um trabalho ruim pode ser o ponto de partida ou inspiração para a realização de trabalhos fantásticos. O que conta, de fato, é o olhar. Na formação em qualquer área que envolve criação o que realmente faz a diferença é o capital cultural e a maneira de olhar para os objetos estéticos e fenômenos culturais. Nesse processo debater, produzir e, principalmente, errar, são fundamentais, pois são as melhores oportunidades de aprendizado. Afinal, ninguém possui um método para criar um artista ou um poeta.
Estudante do curso Cinema de Animação da Aeso, Jamile Aroucha, acha que o rumo do futuro profissional de cinema é descoberto na faculdade. Muitos afirmam ter a intenção de dirigir filmes, mas mudam de ideia ao descobrirem outras funções ao longo do curso. A produção de filmes na internet também foi pauta da nossa conversa.
1) Onde começou a vontade por estudar Animação e como conheceu melhor esse tipo de cinema?
Eu entrei no curso querendo aprender sobre cinema, mas, com o tempo, terminei gostando bastante do ramo de animação. Eu acho que, em alguns aspectos, o animador tem um pouco mais de liberdade e foi isso que mais me interessou
2) Você conhece sites com tutoriais de cinema? Eles ajudam na parte de aprendizado?
Não com tutorias de cinema, mas sobre os equipamentos, programas de computação e desenhos, eles são de maior ajuda na aprendizagem de animação do que de cinema.
3) Quais as perspectivas do jovem cineasta pernambucano? A idéia é permanecer no estado ou migrar para outros pólos do Brasil – como grandes cineastas nordestinos fazem e já fizeram. Há vontade, ao menos dos estudantes, de fincar no estado e apresentar um novo ciclo cinematográfico?
Depende do tipo de cinema, aqueles que querem fazer algo mais profissional e lucrativo querem ir para fora não apenas do estado como também do país, mas alguns q se preocupam menos com dinheiro e procuram fazer algo mais artístico não possuem tanta vontade de sair.
4) Você já produziu algo? Publicou no Youtube?
Sim, para as duas perguntas, o único problema é que no Youtube, se posta algo mais experimental que talvez sirva para portfólio, mas não para lucrar.
5)Para quem fazer cinema?
Novamente vai depender do perfil da pessoa, se ela quiser dinheiro, para aquele público que rende mais, se ela quiser fazer algo para ela ou que ela se interesse, sem muito interesse em dinheiro, ela vai fazer para quem quiser ver seus filmes. Eu acho que um equilíbrio entre os dois públicos seria a melhor opção
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